O Encontro Anual da Sociedade Americana de Oncologia Clínica (ASCO 2026), um dos maiores congressos de oncologia do mundo, reforçou uma tendência que já vinha ganhando força: o tratamento do câncer está cada vez mais personalizado.
Inteligência artificial, diagnóstico molecular e terapias que tratam o tumor pela sua característica genética, e não apenas pelo órgão onde ele aparece, apontam para uma nova fase da chamada oncologia de precisão.
Oncologia de precisão é a abordagem que personaliza o tratamento do câncer com base nas características moleculares e genéticas de cada tumor, em vez de tratar todos os pacientes com o mesmo tipo de câncer da mesma forma.
No ASCO 2026, especialistas brasileiros e internacionais destacaram o uso de inteligência artificial, diagnóstico molecular e terapias tumor-agnósticas como os próximos passos dessa medicina personalizada, uma mudança que já cura casos antes considerados incuráveis.
O que aconteceu no ASCO 2026
O ASCO reúne todos os anos, em Chicago (EUA), milhares de oncologistas e pesquisadores para apresentar os estudos mais recentes da área.
Na edição de 2026, especialistas do Hospital Israelita Albert Einstein, da Mayo Clinic e de Stanford discutiram como tecnologias como inteligência artificial, machine learning e análise genética estão deixando de ser promessas e se tornando ferramentas de impacto clínico real no tratamento do câncer.
“Mais do que tratamentos clínicos, temos trabalhado com grandes bancos de dados de informações moleculares em linhas de pacientes digitais. Estamos tentando desenhar e personalizar os tratamentos baseados em cada paciente”, resumiu Pedro Uson, oncologista clínico do Einstein, durante o evento.
O que é oncologia de precisão, na prática?
De forma simples, a oncologia de precisão busca responder a uma pergunta: em vez de tratar “o câncer de pulmão” ou “o câncer de mama” da mesma forma para todo mundo, por que não tratar cada tumor pelas suas características específicas?
Cada câncer carrega um conjunto único de alterações genéticas e moleculares. Ao identificar essas características, por meio de exames de biomarcadores, sequenciamento genético e análise de imagens, é possível direcionar o paciente para o tratamento que tem maior chance de funcionar para o seu caso específico, em vez de um protocolo padrão.
Terapia tumor-agnóstica: tratar pela mutação, não pelo órgão
Um dos conceitos mais discutidos no congresso foi a terapia tumor-agnóstica. Trata-se de uma nova geração de medicamentos desenhados com foco em uma mutação genética ou alteração molecular específica, e não no órgão onde o câncer apareceu, como pulmão, mama ou intestino.
Na prática, isso significa que um mesmo medicamento pode, futuramente, ser indicado para pacientes com tipos diferentes de câncer, desde que compartilhem a mesma alteração genética.
Segundo Vivek Subbiah, especialista em desenvolvimento de drogas da Universidade Stanford, a expectativa é que dezenas de novos medicamentos tumor-agnósticos sejam aprovados nos próximos anos, ampliando as opções de tratamento personalizado.
Como a inteligência artificial está mudando o desenvolvimento de tratamentos
A inteligência artificial apareceu como um dos pilares centrais das discussões do ASCO 2026. Três frentes se destacam:
- Patologia computacional: uso de IA para analisar imagens de biópsias com mais precisão, ajudando a identificar biomarcadores e definir o tratamento mais adequado para cada paciente;
- Gêmeos digitais: modelos computacionais que simulam como um paciente pode responder a determinado tratamento antes mesmo de ele começar, auxiliando médicos na escolha da terapia;
- Modelos de linguagem de proteínas: tecnologias como a AlphaFold, criada pelo Google DeepMind, que aceleram a descoberta de novos medicamentos ao mapear rapidamente a estrutura de proteínas envolvidas no câncer.
Segundo Mitesh Borad, da Mayo Clinic, essas ferramentas estão tornando possíveis avanços que, até pouco tempo atrás, pareciam distantes da realidade clínica.
Ensaios clínicos N-of-1: quando o próprio paciente é o estudo
Para casos raros, como tumores incomuns ou com alterações genéticas pouco frequentes, o ASCO 2026 também destacou o crescimento dos estudos no modelo N-of-1. Nesse desenho de pesquisa, um único paciente é avaliado como seu próprio controle, recebendo diferentes opções de tratamento (ou placebo) em uma ordem definida, com intervalos entre eles.
Esse formato é especialmente relevante para o universo das doenças raras e dos cânceres pouco comuns, em que não há volume suficiente de pacientes para os estudos clínicos tradicionais. Como resumiu Subbiah: “assim como cada digital é única, cada câncer é um arco-íris maligno no nível molecular”.
O desafio que ainda persiste: o acesso ao tratamento no Brasil
Apesar do otimismo em torno das novas tecnologias, os próprios especialistas do ASCO 2026 reconheceram que o avanço científico não resolve, sozinho, o problema do acesso.
Tratamentos personalizados, exames genéticos avançados e terapias-alvo costumam ter custo elevado e nem sempre estão disponíveis na rede pública ou cobertos pelos planos de saúde no momento em que o paciente mais precisa.
Para Nam Jin Kim, diretor médico de Oncologia e Hematologia do Einstein, fortalecer a pesquisa clínica realizada dentro do próprio Brasil é parte da solução: muitos pacientes só recorrem a tratamentos no exterior porque não encontram estudos clínicos disponíveis aqui.
É também por isso que o investimento em centros de pesquisa ligados a hospitais brasileiros vem crescendo, um movimento que pode, no médio prazo, ampliar o acesso a essas terapias dentro do SUS e dos planos de saúde.
Até lá, quando um exame, medicamento ou terapia-alvo indicado pelo médico é negado, seja por não constar no rol da ANS, seja por não estar incorporado aos protocolos do SUS, o paciente oncológico não fica sem alternativas.
É possível reforçar o pedido com relatório médico detalhado, recorrer à ANS em caso de negativa de plano de saúde, buscar apoio da Defensoria Pública ou de um advogado especializado e, quando necessário, acionar a Justiça para garantir o tratamento.
O que isso significa para quem está em tratamento hoje
Para o paciente e a família, o principal recado dos avanços apresentados no ASCO 2026 é de esperança fundamentada: cânceres antes classificados como incuráveis já vêm sendo curados com a combinação de diagnóstico molecular avançado, terapias direcionadas e acompanhamento médico integrado.
Ainda assim, vale lembrar que cada caso é único. O tipo de tumor, o estágio da doença e o perfil molecular específico de cada paciente determinam quais dessas inovações realmente se aplicam, e essa avaliação deve ser sempre feita por um oncologista.
Perguntas frequentes (FAQ)
O que é oncologia de precisão?
É a abordagem que personaliza o tratamento do câncer com base nas características genéticas e moleculares de cada tumor, em vez de aplicar o mesmo protocolo para todos os pacientes com o mesmo tipo de câncer.
O que é terapia tumor-agnóstica?
É um tipo de medicamento desenvolvido para atuar sobre uma mutação genética específica, e não sobre um órgão específico. Isso significa que o mesmo remédio pode, em teoria, tratar diferentes tipos de câncer que compartilhem a mesma alteração molecular.
Como a inteligência artificial ajuda no tratamento do câncer?
A IA é usada para analisar imagens de biópsias com mais precisão, simular a resposta do paciente a um tratamento antes de iniciá-lo (gêmeos digitais) e acelerar a descoberta de novos medicamentos por meio do mapeamento de proteínas envolvidas no câncer.
O que é um ensaio clínico N-of-1?
É um modelo de estudo em que um único paciente recebe diferentes tratamentos (ou placebo) em uma sequência definida, servindo como seu próprio grupo de controle. É especialmente usado em casos raros, quando não há pacientes suficientes para um estudo clínico tradicional.
Essas inovações já estão disponíveis no SUS ou nos planos de saúde no Brasil?
Parte dessas tecnologias ainda tem acesso limitado no Brasil, principalmente pelo custo elevado dos exames genéticos avançados e das terapias-alvo. Quando o tratamento indicado pelo médico é negado, o paciente pode recorrer à ANS, à Defensoria Pública, a um advogado especializado ou à via judicial para garantir o acesso.
Conclusão
O ASCO 2026 deixou claro que a oncologia caminha para uma nova fase: tratamentos pensados a partir da assinatura molecular de cada tumor, apoiados por inteligência artificial e por modelos de pesquisa cada vez mais individualizados.
Para o paciente brasileiro, esse avanço representa esperança real, mas também reforça a importância de conhecer os caminhos para garantir acesso a essas tecnologias quando elas ainda não chegam de forma equânime à rede pública ou aos planos de saúde.
Se você ou um familiar está em tratamento oncológico e enfrenta dificuldades para acessar exames, medicamentos ou terapias inovadoras, o Momento Saúde tem conteúdos dedicados a explicar, passo a passo, os direitos do paciente e os caminhos da judicialização da saúde no Brasil.
Fontes: Futuro da Saúde; ASCO (Sociedade Americana de Oncologia Clínica); Hospital Israelita Albert Einstein; Mayo Clinic; Universidade Stanford.








