Câncer cresce em jovens: a doença está deixando de ser apenas da velhice?

jovem com câncer chorando em hospital e abraçando médico

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Quando se fala em câncer, é comum imaginar uma doença associada principalmente ao envelhecimento. De fato, a idade continua sendo um dos principais fatores de risco para diversos tipos de tumor. 

Mas uma tendência vem chamando a atenção de pesquisadores em diferentes países: o crescimento de alguns tipos de câncer diagnosticados antes dos 50 anos.

No Brasil, estudos epidemiológicos também identificam mudanças nesse cenário, especialmente em tumores como câncer colorretal, câncer de mama e câncer de tireoide. Isso não significa que a maioria dos casos de câncer esteja ocorrendo em pessoas jovens. Os tumores continuam sendo muito mais frequentes nas faixas etárias mais avançadas.

O que preocupa é outra coisa: em determinados tipos de câncer, a incidência entre adultos mais jovens vem aumentando ou apresentando padrões que merecem investigação.

O que os estudos mostram sobre o câncer em jovens

O conceito de “câncer precoce” ou early-onset cancer costuma ser utilizado para tumores diagnosticados antes dos 50 anos. Pesquisas internacionais identificaram aumento da incidência de determinados cânceres nessa população, sobretudo em tumores relacionados a órgãos do aparelho digestivo e em alguns tipos de câncer de mama e tireoide.

Os números ajudam a dimensionar a tendência. Um grande estudo publicado no BMJ Oncology em 2023, que analisou dados de 204 países e territórios entre 1990 e 2019, estimou um aumento de 79,1% na incidência global de câncer de início precoce, considerado o diagnóstico entre 14 e 49 anos.

Em 2019, foram estimados cerca de 3,26 milhões de novos casos nessa faixa etária, contra aproximadamente 1,8 milhão em 1990. O estudo, porém, representa o cenário mundial e não significa que o Brasil tenha apresentado exatamente esse mesmo percentual.

No Brasil, análises de registros de câncer e estudos publicados na literatura científica também apontam mudanças na ocorrência de determinados tumores em adultos mais jovens.

câncer colorretal é um dos exemplos mais discutidos. Em vários países, pesquisadores observaram aumento proporcional dos casos em pessoas com menos de 50 anos. No Brasil, estudos também encontraram tendência de crescimento da incidência em adultos jovens em determinadas populações e períodos analisados.

Já no câncer de mama, a idade continua sendo um importante fator de risco, mas pesquisadores estudam o aumento ou a mudança do perfil de alguns casos diagnosticados antes da menopausa.

No caso do câncer de tireoide, existe uma particularidade importante: o aumento dos diagnósticos não pode ser interpretado simplesmente como aumento real da doença. Parte desse crescimento está relacionada à maior utilização de exames de imagem, que podem identificar tumores pequenos que jamais causariam sintomas.

Por que o câncer colorretal em pessoas jovens preocupa?

O câncer colorretal engloba tumores do cólon e do reto e é um dos tipos de câncer mais estudados quando o assunto é diagnóstico antes dos 50 anos. Uma das hipóteses investigadas envolve mudanças no estilo de vida das últimas décadas.

Mas existe uma questão que ainda não está completamente respondida: por que determinadas pessoas desenvolvem câncer colorretal precocemente mesmo sem apresentar fatores de risco evidentes?

É justamente nesse ponto que entram pesquisas sobre genética, metabolismo, exposições ambientais e microbioma.

Microbioma: uma peça do quebra-cabeça

O intestino humano abriga trilhões de microrganismos que participam de processos importantes, como digestão, metabolismo e interação com o sistema imunológico. O conjunto desses microrganismos é conhecido como microbioma intestinal.

Pesquisadores investigam se alterações na composição e no funcionamento dessas bactérias poderiam participar do desenvolvimento do câncer colorretal. 

Algumas bactérias e metabólitos produzidos pela microbiota estão sendo estudados por sua possível relação com inflamação, integridade da barreira intestinal e alterações celulares. É importante, porém, não transformar essa área de pesquisa em uma explicação definitiva.

Ainda não existe um exame de rotina capaz de dizer que uma pessoa está com “microbioma cancerígeno”, nem há recomendação para utilizar suplementos ou probióticos como forma comprovada de prevenir câncer colorretal.

A alimentação equilibrada, rica em fibras e baseada predominantemente em alimentos in natura ou minimamente processados, continua sendo uma recomendação muito mais consistente para a saúde geral.

Obesidade e sedentarismo podem ter papel importante no câncer em jovens

A obesidade está associada a maior risco de vários tipos de câncer. Entre os mecanismos estudados estão alterações hormonais, resistência à insulina, inflamação crônica de baixo grau e mudanças metabólicas.

O sedentarismo também merece atenção. A prática regular de atividade física está associada à redução do risco de alguns tipos de câncer e traz benefícios cardiovasculares e metabólicos independentemente do peso corporal.

Isso significa que prevenção não deve ser reduzida à ideia de “emagrecer para não ter câncer”. Uma pessoa pode ter peso considerado adequado e, ainda assim, apresentar alimentação inadequada, baixo nível de atividade física, consumo excessivo de álcool ou outros fatores de risco.

Da mesma forma, pessoas com obesidade não devem ser culpabilizadas pela doença. O câncer é resultado da interação de múltiplos fatores biológicos e ambientais.

Fatores ambientais influenciam no câncer em jovens?

Poluição do ar, determinados produtos químicos, radiação ultravioleta, tabagismo passivo e outras exposições podem contribuir para diferentes tipos de câncer. 

Entretanto, a relação entre uma exposição específica e o aumento de determinados tumores em pessoas jovens precisa ser demonstrada por estudos epidemiológicos robustos.

Por isso, é preciso ter cautela com explicações simplistas encontradas nas redes sociais. Até o momento, não existe uma única substância ambiental que explique o crescimento observado em todos os casos de câncer precoce.

Genética também pode estar por trás de alguns casos de câncer em jovens

Nem todo câncer em uma pessoa jovem está relacionado ao estilo de vidaAlgumas pessoas carregam alterações genéticas hereditárias que aumentam significativamente a predisposição para determinados tumores.

No câncer colorretal, por exemplo, síndromes hereditárias como a síndrome de Lynch e a polipose adenomatosa familiar podem aumentar o risco e fazer com que a doença apareça em idade mais precoce.

No câncer de mama, alterações hereditárias em genes como BRCA1 e BRCA2, entre outras, podem elevar o risco. Isso não significa que toda pessoa jovem com câncer tenha uma mutação hereditária. Mas determinados padrões familiares devem levantar essa possibilidade.

Histórico de vários familiares com o mesmo tipo de câncer, diagnóstico em idade muito jovem, ocorrência de cânceres relacionados em uma mesma família ou múltiplos tumores em uma única pessoa são situações que podem justificar avaliação genética.

Câncer de mama antes dos 50: quando investigar?

O câncer de mama é mais frequente com o avanço da idade, mas também pode ocorrer em mulheres jovens e, mais raramente, em homens. Um dos problemas é que alterações mamárias em pessoas jovens podem ser atribuídas automaticamente a causas benignas.

Nódulo persistente, alteração recente no formato ou tamanho da mama, retração da pele ou do mamilo, secreção sanguinolenta pelo mamilo e mudanças persistentes na pele precisam ser avaliados por um profissional de saúde.

Isso não significa que qualquer nódulo seja câncer. A maioria das alterações mamárias não é maligna, especialmente em mulheres jovens. A questão é não ignorar uma alteração que persiste ou evolui.

No Brasil, o Ministério da Saúde recomenda a mamografia de rastreamento para mulheres de 50 a 69 anos, a cada dois anos, dentro da estratégia de detecção precoce adotada pelo SUS. Para mulheres fora dessa faixa, a decisão sobre exames deve considerar sintomas e fatores individuais de risco.

Portanto, uma mulher com histórico familiar importante ou uma síndrome genética conhecida pode precisar de uma estratégia diferente da população de risco habitual.

Quem tem menos de 50 anos deve fazer rastreamento de câncer?

Rastreamento é diferente de investigação de sintomas. O rastreamento procura uma doença em pessoas que não apresentam sinais ou sintomas

Já uma pessoa com sintomas persistentes precisa de investigação diagnóstica, independentemente de estar abaixo da idade tradicional de rastreamento. Também não existe um único protocolo de rastreamento para todos os cânceres.

Câncer colorretal

Em países como os Estados Unidos, algumas diretrizes recomendam iniciar o rastreamento de câncer colorretal de pessoas de risco habitual aos 45 anos.

No Brasil, entretanto, a estratégia de rastreamento populacional não deve ser automaticamente copiada de outros países. O Instituto Nacional de Câncer (INCA) destaca limitações relacionadas às evidências e à organização de programas de rastreamento para câncer colorretal na população brasileira.

Para pessoas com histórico familiar importante, doença inflamatória intestinal ou síndromes hereditárias, a estratégia pode ser diferente e começar mais cedo.

Câncer de mama

No SUS, a recomendação do Ministério da Saúde para rastreamento populacional é a mamografia entre 50 e 69 anos, a cada dois anos. Mulheres mais jovens podem precisar de acompanhamento individualizado quando apresentam alto risco hereditário ou familiar.

Câncer de tireoide

Não é recomendado realizar ultrassonografia de tireoide como rastreamento de rotina em pessoas sem sintomas. A investigação deve ser direcionada quando existe indicação clínica.

Como reduzir o risco de câncer em jovens?

Não é possível prevenir todos os casos. Mesmo pessoas que levam uma vida saudável podem desenvolver câncer. Ainda assim, algumas atitudes reduzem riscos conhecidos, como:

  • Não fumar: o tabagismo é uma das principais causas evitáveis de câncer. Parar de fumar traz benefícios em qualquer idade.
  • Reduzir o consumo de álcool: o álcool está relacionado a vários tipos de câncer. Do ponto de vista de prevenção, quanto menor o consumo, menor tende a ser o risco associado à exposição.
  •  Manter uma alimentação equilibrada: priorizar frutas, verduras, legumes, feijões, cereais integrais e outras fontes de fibras contribui para uma alimentação saudável. Também é recomendável limitar carnes processadas e reduzir o consumo frequente de alimentos ultraprocessados.
  • Praticar atividade física: caminhar, correr, pedalar, nadar, dançar ou realizar outras atividades de forma regular ajuda na saúde cardiovascular e metabólica e está associada à prevenção de alguns tipos de câncer. A atividade deve ser adequada à condição física de cada pessoa.
  • Manter um peso saudável: o objetivo deve ser cuidar da saúde metabólica de forma sustentável, sem dietas extremas.
  • Proteger a pele do sol: a exposição excessiva à radiação ultravioleta aumenta o risco de câncer de pele. Protetor solar, roupas adequadas, sombra e evitar exposição intensa nos horários de maior radiação são medidas importantes.
  • Conhecer o histórico familiar: saber quais parentes tiveram câncer e em que idade pode ajudar o médico a identificar pessoas que precisam de acompanhamento diferenciado./

O que o jovem não deve fazer

A preocupação com o crescimento do câncer em jovens pode levar ao excesso de exames. Fazer tomografias, ultrassonografias, exames de sangue ou marcadores tumorais sem indicação não significa necessariamente detectar o câncer mais cedo.

Em alguns casos, isso pode gerar falsos positivos, ansiedade, procedimentos desnecessários e até sobrediagnóstico.

O melhor caminho é combinar prevenção, atenção aos sintomas, vacinação quando indicada, rastreamento baseado em evidências e avaliação individual de risco.

A vacina contra o HPV, por exemplo, é uma importante ferramenta de prevenção de cânceres associados ao vírus e faz parte das estratégias de prevenção adotadas pelo sistema de saúde brasileiro.

Conclusão

O crescimento de determinados tipos de câncer em jovens é um tema que merece atenção científica, mas não deve ser transformado em motivo de pânico.

Ainda existem muitas perguntas sem resposta. Pesquisadores investigam como mudanças no estilo de vida, obesidade, sedentarismo, alimentação, microbioma, exposições ambientais e fatores genéticos podem estar interagindo.

Também é importante lembrar que idade jovem não elimina a possibilidade de câncer. Se existe um sintoma que não melhora, uma alteração corporal persistente ou uma história familiar preocupante, vale conversar com um profissional de saúde.

A prevenção não consiste em fazer todos os exames disponíveis. Consiste em saber quais exames fazem sentido para cada pessoa e em qual momento.

Fontes:
Instituto Nacional de Câncer (INCA);
Ministério da Saúde;
International Agency for Research on Cancer (IARC/OMS);
World Health Organization (WHO);
National Cancer Institute (NCI).

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